A Questão Christie

0
142

A Questão Christie, em termos de Relações Internacionais do Brasil, constituiu-se num contencioso entre os governos do Império do Brasil e do Reino Unido, entre 1862 e 1865.

Esta questão diplomática foi fruto de um conjunto de incidentes envolvendo ambas as nações, culminando, pela atuação do embaixador britânico creditado no Brasil, William Dougal Christie, no rompimento das relações diplomáticas por iniciativa do Brasil em 1863.

Incidentes:

O veleiro mercante britânico HMS Prince of Wales, com quatro anos de idade, zarpou de Glasgow, na Escócia, com destino a Buenos Aires, na Argentina, em 2 de abril de 1861. A sua carga era constituída por carvão de pedra, louças, lenços e fazendas, azeite e vinho.

Entre os dias 5 e 8 de junho, na costa da então província do Rio Grande do Sul, em uma região deserta e de praias perigosas na altura do farol do Albardão, a 87 quilômetros da barra do arroio Chuí, a embarcação encalhou e começou a adernar.

Diante disso, a tripulação abandonou o navio e um grupo dirigiu-se à cidade de Rio Grande, para avisar a capitania do porto o sucedido e solicitar auxílio. Nesse meio-tempo, alguns populares em terra, ao tomarem conhecimento do que perceberam como um naufrágio, e dando a carga como perdida, resolveram apoderar-se dela. Quando os marinheiros britânicos retornaram para tentar rebocar a embarcação encalhada, encontraram na praia os corpos sem vida de dez dos seus companheiros e constataram a perda da carga. Diante da gravidade da situação, os sobreviventes apresentaram uma reclamação ao embaixador britânico acreditado no Rio de Janeiro, então capital do Império, William Dougal Christie. Este, no exercício das suas funções, transmitiu-a ao Imperador Pedro II do Brasil, acompanhada de um pedido de indenização e de desculpas, tendo recebido resposta negativa.

No ano seguinte, 1862, no Rio de Janeiro, dois marinheiros da Marinha Real Britânica, tripulantes da fragata HMS Emerald, em trajes civis, envolveram-se em luta corporal com marinheiros brasileiros por causa das mulheres que estavam em companhia destes, provocando tumulto nas ruas da capital. A polícia portuária recolheu o grupo embriagado à prisão, soltando-o no dia seguinte.

A questão:

Dois dias após o incidente com os marujos, o então ministro dos Negócios Estrangeiros do Brasil, Antônio Coelho de Sá e Albuquerque, enviou uma nota diplomática ao embaixador britânico, solicitando que os responsáveis pela agressão aos brasileiros fossem colocados à disposição das autoridades nacionais. Recorde-se que os súditos britânicos, à época no Império do Brasil, respondiam apenas à Justiça de seu país. Desse modo, um indignado William Christie retornou à presença do Imperador, com a ameaça de que, se a indenização pela carga do Prince of Wales não fosse paga, os marujos brasileiros envolvidos na recente arruaça na capital detidos, os policiais brasileiros responsáveis pela detenção inicial demitidos, além da apresentação de um pedido formal de desculpas do Governo Imperial ao Reino Unido, a Marinha Real bloquearia a entrada da baía de Guanabara. Christie, acerca do naufrágio do navio britânico afirmou ainda que os seus tripulantes foram assassinados por brasileiros antes do afundamento, que teriam procedido o saque da carga.

Christie recebeu como resposta a informação, nas palavras do próprio Imperador, de que “o Império do Brasil estaria pronto para a guerra”. Diante disso, em abril de 1862, o Reino Unido enviou uma canhoneira que ameaçou atacar a cidade gaúcha de Rio Grande. Oito meses depois, uma esquadra de guerra comandada pelo Almirante Warren, bloqueou o porto do Rio de Janeiro, apreendeu cinco navios brasileiros que ali estavam fundeados, e exigiu do governo uma indenização de 3,2 mil libras esterlinas. Esse incidente enfureceu a população da capital, que promoveu diversas manifestações de protesto e ameaçou praticar represálias contra propriedades de britânicos no país.

A Marinha do Brasil foi preparada para o conflito iminente, foi ordenada a compra de artilharia costeira, assim como de encouraçados e as defesas nas costas tiveram permissão para atirar contra qualquer navio de guerra britânico que tentasse capturar embarcações mercantes brasileiras. Dom Pedro II foi a maior razão da resistência do Brasil, ele rejeitou qualquer sugestão para que o país cedesse.

Diante da escalada das tensões, a questão diplomática foi submetida por comum acordo ao arbitramento do Rei Leopoldo I da Bélgica, por sugestão do próprio Christie, ao ser surpreendido pela resposta brasileira às suas ameaças. Complementarmente, o Governo Brasileiro, através da sua representação em Londres, encaminhou um pedido de indenização em função da apreensão de embarcações feita pelo Almirante Warren no início do ano de 1863, além da exigência de um pedido formal de desculpas pela violação do território nacional. Em virtude da resposta negativa, o Imperador Dom Pedro II decidiu romper relações diplomáticas com a Grã-Bretanha em maio daquele ano.

Em relação ao arbitramento internacional, acreditando que o veredicto seria contrário aos interesses nacionais, Dom Pedro II decidiu pagar antecipadamente a indenização pleiteada pelos ingleses, por considerar que a discussão não envolvia questões de dinheiro, e sim o desrespeito inglês à soberania nacional do Brasil. Entretanto, o Rei belga deu parecer favorável ao Brasil. O resultado foi comunicado ao representante do governo brasileiro em Bruxelas quando este foi recebido na Corte em 21 de junho de 1863. Diante disso, o Imperador passou a exigir a devolução do dinheiro pago e a apresentação de desculpas por parte do embaixador inglês, mas não conseguiu receber nem uma coisa, nem outra, à época.

A possibilidade de um conflito com o império britânico somente desapareceu quando, em setembro de 1865, o Governo Britânico enviou ao Rio de Janeiro o Embaixador Edwar Thornton, que se desculpou publicamente em nome da Rainha Vitória e do Governo Britânico pela crise entre os dois impérios.

O Imperador do Brasil considerou suficiente esta vitória diplomática sobre a mais poderosa nação do mundo e reatou relações amistosas entre as duas nações.

Enquanto isso a Guerra do Paraguai já havia começado em 1864.

Imagem: Imperador Dom Pedro II, Embaixador Christie e Rainha Vitória.

CURTA O CONSERVADORISMO DO BRASIL NO FACEBOOK

COMENTÁRIOS