História do terror – A Ku Klux Klan

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A famigerada organização terrorista americana Ku Klux Klan, ou KKK.

O termo Ku Klux Klan é utilizado para se designar pelo menos três grupos de ideologia racista e segregacionista norte-americanos no decorrer do final do século XIX, todo o século XX e o início do nosso século, o XXI. As “Três Ku Klux Klan” não são divisões espaciais ou ideológicas de um mesmo grupo, e sim divisões cronológicas. Tudo bem, vamos explicar esta história direito. Apenas saibamos de início que temos conhecimento hoje da aparição no mundo, deste grupo, em apenas três períodos distintos de tempo. A “Primeira Ku Klux Klan” dura do Natal de 1865 até o ano de 1969, a “Segunda Ku Klux Klan” se inicia nos anos 20 do século passado, se mantendo abrangente em todos os Estados Unidos até 1944, quando se desmantela, e a “Terceira Ku Klux Klan” é composta por controversos grupos de neonazistas, racistas, homofóbicos, anticomunistas e anti-miscigenação de maioria jovem, que se utilizam da sigla ou de referências a ela para cobrir suas ideologias. O termo “Ku Klux” provavelmente vem do grego “κύκλος”, que designa um “círculo” ou “anel”, e acredita-se que “Klan” derive da palavra inglesa “clan” (clã) escrita com “K” para efeito de marketing (não, provavelmente não era pra esse efeito, mas convenhamos que KKK é uma sigla bem mais forte do que KKC).

Com o fim da Guerra de Secessão Americana e a libertação de todos os negros da América do Norte, os latifundiários escravistas dos Estados Confederados, derrotados em batalha, aceitam que todas as “raças” são iguais, devem ter os mesmos direitos aos olhos da lei e que os afro-americanos têm que ser inseridos plenamente na sociedade após séculos de escravidão, e todos ficam felizes para sempre, certo? Errado. A História não nos dá visões tão felizes das circunstâncias, então vamos à verdadeira reação dos derrotados sulistas e também dos racistas dos estados do Norte (ou da União): após o fim oficial da Guerra Civil Americana, em 1865, os Estados Unidos têm que começar a reconstrução da parte sul de seu território, nos territórios da derrotada Confederação, onde ocorreu a grande parte das batalhas e onde foi perdida grande infraestrutura. O governo estadunidense, com isto, buscava também influenciar a cultura dos sulistas, onde a escravidão e a supremacia branca estavam muito entranhadas. Esta reconstrução vai ter início ainda durante a guerra, de fato, com a migração em massa de habitantes do Norte, como abolicionistas e missionários religiosos, que lutavam para exibir a igualdade entre as raças como pilar básico da sociedade, e também muitos aventureiros buscando enriquecimento fácil na quebrada economia da região (à época conhecidos como carpetbaggers). As primeiras ações da Organização “Kuklux Clan” (primeiro nome da KKK, o que reforça a etimologia proposta acima) se originariam de oficiais veteranos de guerra dos Estados Confederados, que, não podendo mais juridicamente atestar a superioridade dos brancos, se utilizariam de seus conhecimentos militares de guerrilha para tentar humilhar, aterrorizar e impedir, “extrajudicialmente”, a igualdade entre os libertos e os brancos. Assassinavam negros e brancos que os apoiassem, impediam que votassem, queimavam casas inteiras (às vezes com os moradores dentro), queimavam igrejas e escolas de negros; enforcavam, linchavam, e realizavam torturas. Veteranos do Exército da União da montanhosa região do Condado de Bount, defensores dos direitos dos libertos e dos “carpetbaggers”, reuniram-se na “A Anti-Ku Klux”, e começaram a exercer represálias aos ataques cometidos contra os pró-União e os afrodescendentes. Na cidade de Bennettsville (no Nordeste do Estado Americano da Carolina do Norte) foi formada uma milícia armada pelos próprios afro-americanos, que realizavam constantes patrulhas para defender seus lares, suas famílias e seus direitos. Esses atos, entre outros, demonstram que os atos terroristas da KKK, embora sem resistência do governo inicialmente, foram respondidos pelas mãos da própria população. Com a influência do grupo se alastrando, diversos estados do Sul dos Estados Unidos começaram a decretar ilegal a organização, assim como o Governo Federal a declarou uma “organização terrorista”, que caiu na clandestinidade. Seus membros passaram a ser perseguidos, e começaram a fugir para áreas rurais e interioranas, onde o poder público não os encontraria com tanta facilidade. Nathan Bedford Forrest, “Grande Feiticeiro”, o Líder Nacional da KKK, em meio à crise, pede a todos que debandem, dissolvam seus grupos regionais, com o argumento de que a organização estava “sendo pervertida de seus propósitos honoráveis e patrióticos, tornando-se nociva à paz pública ao invés de subserviente a esta”. Termina, a partir daí, gradualmente, a Primeira Klu Klux Klan.

Já a Segunda Ku Klux Klan é a mais lembrada atualmente e a que teve mais reconhecimento e poder por todos os EUA. Ela é fundada em 1915, por William Joseph Simmons e outros quinze membros fundadores. Muito influenciados pelo filme “The Birth of a Nation”, de D. W. Griffith, que glorificava a primeira KKK (e foi o mais rentável da História até o ano de 1925), acabaram adotando como uniforme figurinos usados no filme (os trajes brancos com máscaras em formato de cone). Pregavam o preconceito a imigrantes, sendo anti-católicos, antissemitas e pró-Lei Seca (uma Lei que proibia a produção, distribuição, venda e consumo de bebidas alcoólicas nos Estados Unidos) além de racistas. Estas outras crenças além do ódio aos negros faziam com que a nova KKK fosse muito famosa e crescesse rapidamente, visto que se baseavam em conflitos sociais polêmicos ao seu tempo. Defendiam a supremacia dos “WASP”, sigla em inglês para “Brancos, Anglo-Saxões e Protestantes”, àquela época ainda maioria no país. Chegaram a quase cinco milhões de membros em seu auge, dentre estes muitos políticos, principalmente do Partido Democrata. Se distinguiam do Primeiro KKK por diversos motivos como, além dos supracitados, a organização mais forte em áreas urbanas, o uso de cruzes em chamas como método de intimidação (hábito também vindo do filme “The Birth of a Nation”) e a incorporação de mulheres ao grupo. Professores católicos eram demitidos de escolas de áreas da Ku Klux Klan, negros eram silenciados em eleições, políticos e líderes de movimentos negros eram assassinados por mascarados da KKK e a propaganda, atrelando a imagem de todos os estadunidenses à ideologia do grupo e todas as minorias odiadas por eles como anti-americanas. Desfiles eram muito comuns, ostentando pelas avenidas das grandes cidades os singulares trajes da organização. Provavelmente, foi a maior e mais influente organização terrorista que já vimos na História. Seu declínio nas graças populares começa com a Grande Depressão, e se acentua deliberadamente com o início da Segunda Guerra Mundial, visto que seus líderes admiravam o trabalho de Adolf Hitler e sua pregação de uma raça superior, assim como seus discursos antissemitas e os ataques de seu governo contra a Igreja Católica na Alemanha, e que o Japão, do Eixo, atacaria Pearl Harbor, o porto americano no Oceano Pacífico que geraria o conflito da Segunda Guerra conhecido como “Guerra do Pacífico”. Para lutar na Guerra do Pacífico contra o “perigo amarelo”, a ameaça nipônica à segurança da América, muitos e muitos membros da KKK sairiam da Organização rumo aos navios da Marinha dos Estados Unidos, rumo ao Extremo Oriente, deixando os seus ideais em casa e levando o ódio aos japoneses à trincheira. Assim, sem o apoio de boa parte dos seus membros e já sem o apoio dos políticos e da população, a Ku Klux Klan como a conhecemos hoje se dissolve e acaba.

A Terceira KKK não é, de fato, uma organização terrorista de credo único nem de líderes definidos, e sim um conjunto de pequenos grupos de maioria jovem anticomunistas, anti-imigração, anti-católicos, racistas e homofóbicos que se espalham por todo o território estadunidense, e usam-se da sigla para aterrorizar e como inspiração para seus atos. Muitas vezes podem ser divergentes, o que não os caracteriza, repito, como uma nova organização terrorista como a Ku Klux Klan foi. Ainda assim, são alarmantes as estimativas de que em 2012 estes grupos possuíam entre cinco e oito mil membros.

OBS: Com este artigo do blog não busca fazer apologia ao crime de preconceito, discurso de ódio, intolerância religiosa, homofobia, et cetera. Apenas buscamos que partes obscuras de nossa História sejam “passadas a limpo”, estudadas, conhecidas, e não ignoradas como são atualmente.

 

IMAGEM= Membros da Ku Klux Klan realizam desfile na Avenida Pensilvânia, considerada o coração de Washington D.C., a capital dos Estados Unidos da América. Esta avenida liga a Casa Branca ao Capitólio, note o Capitólio ao fundo da fotografia.

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