Rússia desafia EUA no mercado global de gás natural liquefeito, GNL

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Excesso de oferta ameaça o preço do gás natural em 2018.

Num dia frígido de dezembro em Sabetta, um porto localizado na Península de Yamal, no Norte da Rússia às margens do Oceano Ártico, líderes políticos e empresariais russos se reuniram para marcar a abertura de uma nova instalação industrial que poderia ajudar a Rússia a reduzir a influência dos EUA na Europa.

Não, não é uma nova base submarina ou silo de mísseis; é uma instalação de gás natural liquefeito (GNL) chamada Projeto Yamal.

A cerimônia de abertura em 8 de dezembro contou com a presença do presidente russo Vladimir Putin e uma série de altos executivos da energia russa, convocados para o desolado extremo norte por Putin, onde o presidente exaltou o Yamal como um projeto que “assegura o futuro da Rússia, o futuro da sua economia”.

E isso não é uma hipérbole. O Projeto Yamal dá à Rússia maior peso no mercado de gás natural liquefeito (GNL) de rápido crescimento, que é dominado pelos Estados Unidos, o Catar e a Austrália. Mais importante ainda, a Rússia planeja diminuir as incursões dos EUA no mercado europeu de gás, que historicamente dependia da oferta russa.

Após a cerimônia de 8 de dezembro e um evento de imprensa, Putin pessoalmente deu ordens para embarcarem a primeira entrega de GNL da usina Yamal no Christophe de Margerie, um navio quebra-gelo transportador de GNL. O navio rumou para a ilha britânica de Grain e entregou seu primeiro carregamento de GNL ao Reino Unido, que enfrentava uma falta temporária de gás.

Rússia, gás natural liquefeito, GNL, EUA - O presidente russo Vladimir Putin (centro); Leonid Mikhelson (2º esq.), o CEO da Novatek; e o ministro russo da energia Alexander Novak (esq.) visitam as instalações da usina Yamal GNL em Sabetta, na Península de Yamal, Norte da Rússia, em 8 de dezembro de 2017 (Alexey Druzhinin/AFP/Getty Images)

O presidente russo Vladimir Putin (centro); Leonid Mikhelson (2º esq.), o CEO da Novatek; e o ministro russo da energia Alexander Novak (esq.) visitam as instalações da usina Yamal GNL em Sabetta, na Península de Yamal, Norte da Rússia, em 8 de dezembro de 2017 (Alexey Druzhinin/AFP/Getty Images)

O Projeto Yamal é uma usina de exportação de GNL de US$ 27 bilhões, localizada entre o pergelissolo (ou solo permanentemente congelado) e as renas na costa norte da Rússia. Ele é um dos primeiros projetos de GNL da Rússia, um tipo de marco histórico, e é operado pela gigante do gás natural Novatek OAO, uma empresa russa que foi colocada sob sanções dos EUA em 2014. O Projeto Yamal GNL é 50% controlado pela Novatek e tem investimentos minoritários da gigante francesa de energia Total, da chinesa CNPC e do Fundo Rota da Seda da China.

Crescente demanda global

Normalmente, o gás natural é entregue através de redes de gasodutos, que são caros de construir e manter, e o tamanho do mercado é limitado pelo alcance físico das tubulações. O GNL é o gás natural resfriado e comprimido em forma líquida (a temperaturas entre -165°C e -155°C), que pode então ser transportado eficientemente em navios e em transportes terrestres.

A demanda global de GNL aumentou para 258 milhões de toneladas métricas por ano em 2016, um aumento de 5% em relação a 2015. Os níveis relativamente baixos de emissões de carbono do GNL tornam-no uma boa escolha para países sem gasodutos e aqueles que procuram reduzir o uso de carvão. O GNL é considerado o combustível fóssil mais limpo, gerando cerca de 30% menos CO2 do que o petróleo e 45% menos do que o carvão.

O Japão é o maior importador mundial de GNL, seguido pela China e Coreia do Sul, de acordo com dados da Thomson Reuters Eikon. A China ultrapassou a Coreia do Sul como o segundo maior importador do mundo em 2017, com um aumento de 50% em relação ao ano anterior nas entregas. Os três países juntos representam 60% da demanda global de GNL.

GNL dos EUA ameaça gás russo

A Rússia é tradicionalmente o maior fornecedor de gás para a Europa continental, em virtude de uma rede de gasodutos da gigante estatal de gás Gazprom, que remonta à Guerra Fria.

O presidente estadunidense Donald Trump tem promovido as exportações americanas de GNL desde as reuniões do G20 no meio do ano de 2017, como forma de aliviar a Europa da dependência do gás russo e da influência econômica e política que acompanha a condição. Depois de assinar um contrato de GNL de cinco anos com a Polônia, o primeiro transporte de GNL dos Estados Unidos chegou em junho de 2017.

Um importador de longa data de gás, o recente boom na extração de gás nos EUA e o desenvolvimento de novos terminais de exportação de GNL (o primeiro foi aberto em 2016) deu aos Estados Unidos a capacidade de distribuir o GNL globalmente. Além da Europa, os Estados Unidos têm cortejado clientes na Índia, no Japão e na Coreia do Sul.

Rússia, gás natural liquefeito, GNL, EUA - (Fonte: Thomson Reuters)

(Fonte: Thomson Reuters)

Tudo isso tem sido uma grande ameaça para o negócio de gás natural da Rússia na Europa continental. De fato, devido à sua geografia e rede de gasodutos existentes, a Europa é o único mercado que pode escolher entre GNL e gasodutos.

A construção de um gasoduto da Gazprom da Sibéria para o Nordeste da China não deverá entrar em operação até 2019, de modo que a nova instalação de exportação de GNL do Projeto Yamal permite que a Rússia converta o seu gás de gasoduto em GNL e compita nos mercados de GNL na Europa e na Ásia.

Além disso, o Kremlin deu à Gazprom “carta branca” para vender gás a qualquer preço para boicotar as ambições americanas de GNL na Europa.

O Kommersant, um jornal de negócios com sede em Moscou, informou em 28 de dezembro que uma ordem executiva da gestão Putin autorizou à Gazprom a vender gás de gasoduto para empresas envolvidas na produção de GNL a “preço não regulamentado” a partir de 1º de janeiro de 2018.

Em última análise, a Rússia está visando uma participação de 15-20% do mercado global de GNL, disse o presidente da Novatek, Leonid Mikhelson, aos jornalistas em 12 de dezembro, em Moscou, de acordo com a Reuters.

Preocupações com excesso de oferta

O aumento das exportações da Austrália, dos Estados Unidos e da Rússia ajudou a reduzir os preços globais do GNL nos últimos anos. Os preços do GNL na Ásia caíram de mais de US$ 14 por milhão de unidades térmicas britânicas (mmbtu) para menos de US$ 10 mmbtu em dezembro de 2017.

“Quando totalmente operacional em 2019, [o Projeto Yamal] deveria dobrar a capacidade de liquefação do país para cerca de 26 milhões de toneladas por ano, ou 11% da produção mundial de GNL em 2016”, informou a empresa de classificação financeira Fitch Ratings numa nota de pesquisa em 21 de dezembro.

Rússia, gás natural liquefeito, GNL, EUA - (Fonte: Bluegold Research)

(Fonte: Bluegold Research)

Os maiores obstáculos enfrentados pelos projetos russos de GNL nos próximos anos serão o financiamento, devido às sanções dos EUA. Mas os bancos chineses e outros asiáticos provavelmente estarão prontos para emprestar, e as participações diretas, que não estão sujeitas a sanções, podem ser uma fonte alternativa de financiamento.

“É provável que o mercado de GNL seja superabastecido por vários anos devido à capacidade adicional de GNL produzida nos EUA, Austrália e outros lugares, o que pode resultar em preços deprimidos até a demanda chegar junto”, disse a Fitch Ratings.

Fonte – Epoch Times

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