Um dos traços mais característicos (e nocivos) dos movimentos revolucionários é a propensão de seus adeptos a se identificar com os ideais que professam, atribuindo a si próprios as perfeições e as belezas imaginárias de sua ideologia ou de seu projeto de sociedade, como se esses ideais já tivessem sido realizados e experimentados factualmente.

Quando o socialista apela a um ideal impraticável (e grotescamente distorcido) de igualdade, ou quando o libertário alega estar respaldado por algum tipo de lógica (via de regra, linear), eles revelam um desprezo pelo acumulado histórico das grandes civilizações e um apego excessivo a construções mentais e a doutrinas, o que demonstra uma inclinação oposta ao que convencionou-se chamar de disposição conservadora — àquela opção pelo familiar em vez do desconhecido, pelo experimentado em vez do não experimentado, pelo real em vez do ideal, pelo possível em vez do perfeito, pelo local e circunscrito em vez do universal e ilimitado.

Quando, por outro lado, um conservador pede exemplos concretos e bem-sucedidos de sociedades que vivam (ou tenham vivido) de acordo com o socialismo ou com o libertarianismo, o faz justamente por entender que os adeptos dessas ideologias tomam o potencial por atual, imaginando que seus projetos de sociedade (ou seus sistemas, em sentido mais amplo) possuem no plano ontológico as perfeições que, se muito, possuem no plano lógico-normativo.

Se isso pode parecer um mero detalhe, é necessário resistir ao risco de se deixar enganar pelas aparências. Não há nada mais perigoso do que se fechar para a realidade, substituindo a experiência do real por lindos ideais e belas construções mentais. A humanidade só experimentou a desordem generalizada, o morticínio desenfreado, abrindo caminho para o genocídio e para o democídio, quando os homens deixaram de ser julgados pelos seus atos concretos e por suas realizações para serem julgados pelos ideais que alegam defender, pelos projetos de sociedade que desejam implementar e pelas mudanças que desejam realizar no mundo.

Sem isso, não teríamos a contagem macabra de cadáveres inaugurada na modernidade e disputada, corpo a corpo, por ideologias as mais diversas, com mórbido destaque para o Socialismo e suas vertentes; e enquanto não nos livrarmos dessa distorção de percepção, dessa visão equivocada sobre o papel do homem no mundo, não teremos como aspirar nem mesmo aquele coeficiente normal de paz de que as comunidades humanas gozaram até o advento do culto ao progresso e aos ideais iluministas que marcam a modernidade.

Esta é, com algumas considerações pessoais, uma das lições mais importantes que aprendi, sobre política, com o Professor Olavo de Carvalho e espero que seja tão proveitosa para vocês quanto tem sido para mim.

Por – Filipe G. Martins

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